Paulinho Criciúma

Falar de mim é difícil. Falar do Botafogo, nem tanto. Nunca é demais falar de uma paixão. O que um menino do interior — e de família humilde — pode sonhar, além de ser jogador de futebol? Vestir a camisa de um grande time, ser campeão por um clube, que é um berço de mitos, eram desejos quase impossíveis de se alcançar. Ser ídolo, então, nem pensar!

Cresci vendo Paulino, meu pai, voltar para casa negro de carvão. Os únicos pontos brancos estavam nos olhos, cansados. Corpo alquebrado pelo trabalho tão pesado, pulmões prejudicados por uma jornada desumana em uma mina. Como imaginaria que essas duas cores, que para mim eram apenas melancolia, fossem me fazer chorar de alegria, décadas mais tarde?

Quando cheguei ao Botafogo, tomei para mim o sofrimento de corações e mentes, tão atormentados por aquele longo jejum. Nasci no Botafogo, já em débito com a torcida. Essa conta não era minha.

Mas e daí?

Conseguir um título parecia algo impensável. Tantos craques tinham passado por lá e nada acontecia. Quando seria o fim daquela história tão triste e — paradoxalmente — tão cheia de esperança? Tudo era loucura.

A cada derrota, no meu primeiro ano, tudo parecia ruir. A torcida se revoltava, insana. E eu, também insano, não deixava de acreditar. A redenção para crianças, jovens e velhos torcedores passava por todos nós, jogadores.

Como tornar esse sonho possível? Como buscar? Como chegar? Como conquistar? Conquistar com um contraventor paternalista? O paternalismo passava longe do velho Paulino. O que era errado ele mostrava. E punia. Não passava a mão na cabeça dos filhos, ao contrário do inimaginável Emil Pinheiro. Pai de todos, sensível, quase juvenil, parecia inocente. Preferia esconder os erros para nos poupar.

O Botafogo fez de mim um homem melhor. Conheci a solidariedade em campo. Senti a necessidade de conhecer nossas limitações. É do erro mais infantil que se chega à vitória. Para alguns fui craque; para outros, esforçado. Sem falsa modéstia, fui um lutador. Incansável. Sou um iluminado por ter sido campeão. Tantos craques não tiveram essa felicidade, essa emoção que senti.

E hoje, 21 depois de 21, o fogo ainda arde, ainda me marca. No Botafogo ganhei irmãos, amizades que cultivo até hoje. Duas décadas depois, ainda me emociono com essa torcida tão diferente. Nunca vou esquecê-la. Podem gritar. Vocês são campeões, falei, aos prantos, para as arquibancadas. É impossível descrever a sensação de ser um dos responsáveis pelo fim da agonia de milhões de botafoguenses.

Minha vida é residência de uma alma que se desprendeu das geleiras pesadas que envolviam um jejum que parecia infinito. O que a gente leva da vida é a vida que a gente leva, já dizia o Barão de Itararé. E eu levo o Botafogo no meu coração. Por toda a minha vida.